F1: Houve em tempos um desporto…

Houve em tempos um desporto de automóveis chamado fórmula 1. Dava aos domingos, normalmente à hora de almoço. Não era um desporto limpo, havia mecânicos, havia toques e alguns despistes. Andava-se nos limites e os mecânicos andavam numa luta para mudar 4 pneus em 4.1 segundos (Ferrari).

Ao Domingo lá em casa juntavam-se defensores do turbo contra defensores do aspirado, defensores da suspensão inteligente contra defensores da suspensão tradicional, os Sennas e os Prost, o Mansells e o Piquets, novos e miudos para verem um dos desportos mais excitantes do planeta.

Geravam-se discussões violentas e apaixonadas que duravam enquanto a RTP transmitia durante aquelas 2h. Não imaginam a desilusão de alguns da primeira vez que a Ferrari abandonou os V12 em favor dos V10… ou a loucura que foi assistir à primeira volta do grande prémio de Donington Park em 1993 (veja o vídeo)

Depois alguém acabou com a F1, passou a dar em canal fechado, porque afinal não era de interesse público, passou a ser dominada pelos interesses financeiros de alguns abutres que a pretexto de sabe-se lá o quê a queriam tornar num desporto limpo, clean. Vieram os pneus com sulcos, os motores mais pequenos, os ailerons pinga amor, e toda uma série de decisões que ano após ano pareciam querer condenar as gloriosas corridas de carros a uma simples procissão de domingo de manhã.

Deixei de ver a F1 há alguns anos, quando se mudou para a TV de canal fechado. Continuo a saber o que se vai passando pelos jornais da especialidade e é com a maior tristeza que verifico que os patrões da fórmula 1 conseguiram o que procuravam. Tornaram a F1 limpa… não há ultrapassagens, não há disputas, não há um motor a partir, um tanque de gasolina a esvaziar-se mais depressa do que o devido, nada… Tão limpa está que não há nada… e a parte suja deste desporto passou toda para os bastidores. As espionagens da Maclaren à Ferrari e a decisão de penalizar sem penalizar a Maclaren mostram o quão baixo este desporto chegou.

Para infelicidade de todos esta é a F1 que temos e com a qual teremos que viver. Temos é o direito de achar que já não se trata de desporto e o direito de nos sentirmos indignados com o que os actuais patrões andam a fazer à memória dos outros, dos genuínos membros do circo.

18 Respostas

  1. Subscrevo, tenho saudades da Formula 1 que via enquanto miudo. Dos tempos em que havia disputa, em que era um desporto emocionante… Agora, agora quase que me emociono mais a ver o ultimo episódio da Doce Fugitiva… Bah :(

  2. […] por Nuno Saraiva em Setembro 13th, 2007 Subscrevo, todas as letras, e […]

  3. Nunca fui grande fanzoca da F1, mas tive um namorado louco pela Ferrari, pelo que de vez em quando havia patuscadas com corridas à mistura. (Diga-se que, curiosamente, sempre gostei dos livros do Michel Vaillant.)

    E nunca me esquecerei das lágrimas que um amigo meu, dos mais estóicos que tenho, chorou com a morte do Senna.

    Velhos tempos, indeed.

  4. Uiiii o Michel Vaillant. Ainda me lembro que o primeiro desses livros que li foi o Michel Vaillant em Lisboa (que ainda tenho aqui) :P

    As memorias, as memorias… :)

  5. Atenção que não foram só as regras que tornaram a F1 menos competitiva, foi a evolução muito forte das equipas de topo. Mas dizer que não há emoção (desporto)… Neste momento a qualificação tem muito mais piada que as 12 voltas de antigamente, as 3 partes da qualificação com os pilotos a lutar progressivamente por seguir para a ronda seguinte dão emoção. E neste momento apesar de os dois pilotos da Mclaren estarem em vantagem algo confortável, temos 4 vitórias do Alonso, 3 do Hamilton, 3 do Raikkonen e 3 do Felipe Massa, nesse aspecto mais renhido não poderia estar, nunca se sabe quem vai ganhar a corrida. Esperemos no próximo ano ainda mais renhido estar. E que a Mclaren jogue limpo…

    E algumas das regras vieram trazer mais segurança à Fórmula 1…

  6. E eu que cheguei a coleccionar cromos de F1 (com os capacetes dos pilotos), a jogar incessantemente Grand Prix no meu PC e a fazer directas no sofá sozinho para ver a o Grande Prémio do Japão!

    Tenho saudades desses tempos e não suporto a corrida hoje em dia, em que ganha quem tiver uma estratégia de boxes melhor que a do vizinho!

  7. Infelizmente a F1 é actualmente uma monótona corrida em que tirando a largada, com ultrapassagens e umas pancadinhas entre carros, a restante corrida é simplesmente levar o carro até à linha de chegada, tendo cuidado para não perder lugares nas boxs. Ai que saudades do tempo do Senna, Prost e companhia limitada…

  8. Pode ser que a F1 ganhe um novo ânimo para os portugueses com a entrada da “equipa do Toni”

    » http://semanal.expresso.clix.pt/2caderno/economia/artigo.asp?edition=1819&articleid=ES266137

  9. Subscrevo completamente este texto!
    Que saudades da Fórmula1…
    A verdadeira, aquela que ainda era um desporto…
    Abraço!

  10. Pode-se atribuir tudo ao dinheiro, mas acho que o principal ingrediente para a F1 inócua de hoje foi o malfadado grande-prémio de San Marino, com as mortes do Ratzenberger (está bem escrito?) e do Senna. A F1 ficou numa encruzilhada, com os governos a meterem-se ao barulho e esteve quase para acabar.

    É pena. Por estúpido que possa parecer dizer isto, para o desporto ser emocionante, tem que haver algum risco. Aquilo não pode ser tão controlado que não haja espaço para inovação tecnológica. O mal é que o risco implica uma probabilidade não zero de morrer gente…

    Agora, alinhem-me todos os motores de F1:

    e não há como os V12 (é o carro que passa no Rio). Fabuloso… Os motores actuais fazem barulho de mota :-/

  11. […] sobre F1, que quase tresanda. Mas enfim, é um desporto do qual eu gosto muito. Ver/Ler os posts do David, do Nuno e finalmente do Sérgio, fizeram relembrar-me por que é que eu gosto da […]

  12. @ Pedro Queiroz

    Eu também… Directas ou até mesmo por o despertador para as 4…

    E também tive a caderneta dos capacetes..

    E também joguei aquele GP do pc.

  13. […] que tudo gostava de dizer o quão fiquei surpreendido com a reacção fantástica que o post “F1: Houve em tempos um desporto” […]

  14. […] F1, que quase tresanda. Mas enfim, é um desporto do qual eu gosto muito. Ver/Ler os posts do David, do Nuno e finalmente do Sérgio, fizeram relembrar-me por que é que eu gosto da […]

  15. concordo contigo, especialmente com o facto de dar em canal fechado.

    lembro-me que o único português que subiu ao pódio teve a sua corrida transmitida na tvcabo!

  16. […] Por causa destas atitudes é que este já não é o desporto que foi em tempos. […]

  17. […] F1: Houve em tempos um desporto… […]

Os comentários estão fechados.

%d bloggers like this: