Sobre a Fotografia Digital

Sobre a Fotografia DigitalComo devem ter reparado nos últimos dias tenho andado mais de volta das fotografias que tirei de Paris do que propriamente do mundo da tecnologia e afins.

Há alturas em que nos encantamos por uma coisa de tal forma que não conseguimos parar de pensar nela. Foi assim com a cidade de Paris. Fotografar em Paris é quase um crime. Basta apontar e disparar tal a profusão de locais interessantes para fotografar.

Contudo neste tempo de fotografia digital há constantemente uma dúvida que por vezes me colocam. Se eu trabalho as fotografias em photoshop ou não. Bem… Tenho algumas coisas a dizer no que diz respeito a isso: Sim e Não.

Primeiro o Não, porque raramente utilizo o Photoshop depois de ter adoptado o Aperture como o meu estúdio digital. A minha sequência de trabalho passou a ser mais linear e mais rápida.

Segundo o Sim, porque raramente aquilo que sai da máquina digital está pronto para consumo. As pessoas por vezes acham que não se deve mexer no que a máquina vomita, mas parecem esquecer-se que o que a máquina vomita é já uma interpretação daquilo que verdadeiramente foi lido pelos sensores.

O problema reside basicamente que toda a nossa estrutura de cores é baseada em 8 bits de informação por canal. Ora cada sensor de uma câmara vai ler um determinado valor que tem que ser convertido para 8 bits e por fim um perfil de cor tem que ser aplicado por forma a representar a realidade. Isto faz com que ao mostrar uma fotografia num ecrã a informação mostrada seja menor que aquela que a câmara capturou. (Isto mesmo fotografando em Raw).

Ora hoje em dia há câmaras que fotografam já com 14 bits por canal. Então como apresentar estas imagens aos nossos olhos? Há que as reduzir a 8 bits, e para isso é preciso fazer um mapeamento da informação capturada pelos sensores a um perfil pré-estabelecido. Ora, isto é o mesmo que dizer que se aceitam os valores escolhidos por um conjunto de engenheiros muito competentes no Japão, segundo o que eles acham ser o perfil mais neutro possível para as nossas fotografias. Esta discussão do que é melhor representação da realidade sempre existiu, mesmo no tempo do filme. Havia quem preferisse as cores saturadas da Kodak Ektachrome ou antes os pretos aveludados do Velvia da Fuji (eu adoro estes pretos… ).

No digital acontece o mesmo. Os perfis de cor da Canon são mais saturados, os da Nikon mais neutros. É uma questão de gosto pessoal. Mas a vantagem do digital é que cada um pode ter um estúdio dentro do seu computador. Se no tempo do filme era raro poder mexer no processo de revelação por não se ter um estúdio em casa, agora pode-se abrir os ficheiros RAW das máquinas e decidir como queremos que a fotografia seja revelada ao público.

A fotografia deixou de ser aquilo que a máquina vê segundo uma média do que se acha que as pessoas percebem da realidade para se tornar facilmente no objecto da percepção dos nossos olhos.

Assim, quando olhar para uma fotografia lembre-se que ela não é o que a máquina capturou, mas sim o que o fotografo trabalhou e este processo é primeiramente mental e só depois técnico. Photoshop, Canon, Aperture, Nikon… são só instrumentos para a realização da visão da mente com a vantagem de hoje serem processos não destrutivos.

A fotografia democratizou-se com o advento do digital, mas boas fotografias continuam a ser raras. Não são o resultado do processo mecânico, mas antes e como sempre do olhar do fotografo. A nossa única esperança é que as vantagens técnicas nos permitam chegar mais rapidamente ao que idealizamos em termos mentais.

2 Respostas

  1. Que diria por exemplo,- Henri Cartier-Bresson- sobre todos esses tecnicismos. Ele que trabalhava exclusivamente com com uma máquina de 35 mm de visor directo e uma objectiva normal de 50 mm.
    Não censuro as composições fotográficas com programas como o Photoshop, por exemplo, mas não nos esqueçamos nunca que a verdadeira alma fotográfica está no momento do disparo.

  2. @Eduardo,

    Acho que se ele estivesse vivo hoje continuaria a trabalhar com uma Leica, como sempre. Talvez a recente M8 digital. E quanto a achar que ele trabalhava apenas com “uma máquina de 35mm de visor directo e uma objectiva de 50mm” eu trocava todo o meu equipamento de filme por qualquer Rangefinder da Leica.

    E não podemos esquecer que para além do tirar a fotografia havia todo o papel da câmara escura que hoje é ocupado pelo estúdio digital. A fotografia, seja digital, seja filme é feita no instante da captura, não pela máquina, mas pelos olhos do autor. Concordo contigo. Tudo o resto que vem a seguir é “técnica” seja câmara, estúdio ou software… só está lá para representar da melhor forma aquilo que a tua alma viu quando olhou pelo visor.

    Aliás a prova de que até para o Henri Cartier-Bresson o equipamento era importante é que em 1939 após um ano em África com uma máquina Krauss onde todos os filmes ficaram estragados devido a humidade, foi comprar o que havia de melhor em termos de equipamento: Leica.

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